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Tradição e Memória

As Festas de Reis são muito tradicionais na região de Boa Nova, uma herança de sincretismo que têm um importante papel na formação da identidade cultural das comunidades locais, realizando um diálogo entre muitas ancestralidades. Festejos semelhantes acontecem em diversas partes do mundo, principalmente nos países da América Latina, entre os festejos Natalinos e o dia 06 de janeiro. Suas raízes datam de cerca de 2.000 anos, e das comemorações de mudanças de estações, geralmente por volta do dia 25 de dezembro, quando eram comemorados a chegada do inverno, para os países do hemisfério norte, e a chegada do verão, para os países do hemisfério sul.

Na Europa, povos anteriores aos romanos já comemoravam a data, originalmente considerada como de nascimento do Deus Sol. Assim, foi adotada pela Igreja para facilitar a conversão e assimilação social desses povos. Até então o nascimento de Jesus era comemorado no dia 06 de janeiro, quando acontecia também a visita dos Reis Magos ao filho de Deus, a mudança abriu caminho para a comemoração da chegada dos reis magos (Melchior, Baltazar e Gaspar). Por outro lado, a chegada do período mais quente do ano, geralmente comemorado no solstício – o dia mais longo do ano – é um elemento importante nas tradições de muitos povos pré-colombianos das Américas Central e do Sul, o que facilitou a adoção das comemorações e daí a forte presença de sua celebração na tradição popular brasileira, enriquecida com contribuições culturais indígenas e africanas, herdadas do catolicismo popular latino e ibérico.

As tradições populares natalinas eram comuns em toda a Europa Cristã, muitas vezes dramas e encenações musicais eram utilizados como instrumento de ensino e divulgação das histórias. O episódio dos Magos do Oriente, desde cedo, tornou-se um dos temas prediletos do público. As apresentações que, a princípio, eram realizados no interior das igrejas foram, pouco a pouco, ganhando muita popularidade e ganhando espaço nas praças e ruas. Assim surgiam os cortejos, vinculados aos templos religiosos das cidades, que encenavam a temática dos magos pelas ruas, bem como grupos nos povoados rurais que, de casa em casa, contavam essas histórias.

Tais tradições chegaram ao Brasil através dos colonizadores e dos missionários jesuítas e encontram possibilidades de sincretismo com as próprias tradições dos nativos, facilitando o objetivo de catequizar toda a população. Assim, com a expansão do povoamento colonial, tais manifestações populares se difundiram e diversificaram, recebendo influências locais, consolidando-se em
muitas formas de celebrar os Reis Magos. Por isso temos diversas manifestações que se enquadram nesses festejos populares, segundo o escritor Câmara Cascudo, os Reisados “refere-se sempre aos ranchos, ternos e grupos que festejam o Natal e Reis. O reisado pode ser apenas a cantoria como também possuir enredo ou série de pequeninos atos encadeados ou não.”.

Assim, existem muitas manifestações que fazem parte da categoria de reisados: as Folias/ Companhias/Embaixadas de Reis, o Terno de Reis (Bahia e sul), Pastor, Tiração de Reis, o Presépio, as Pastorinhas, os Pastoris, o Bumba meu boi do Nordeste brasileiro oriental, o Boi de Mamão, o Boi de Reis, os Reis de bois, o Cavalo-Marinho, a Companhia de Pastores, as Reiadas, Reis de Careta. Também existem aqueles que não têm como temática os Reis Magos e o Menino Jesus, como a Chegança e a Marujada, a Taieira e o Ticumbi, e muitas outras espalhadas pelo Brasil todo. Quando se trata de caracterizar o Patrimônio Imaterial o Festejo de Reis se enquadra na categoria de festas e rituais e serve como importante ferramenta para dar continuidade às tradições,à cultura local de Boa Nova e região. Por sua vez ancorada nas lembranças e aprendizados passados que se alojam na memória individual e coletiva, através da experiência socialmente compartilhada, mas que também sofre transformações e traz um diálogo permanente entre o passado e o presente, de forma a contribuir para as narrativas de história e identidade.

A Festa de Reis é uma tradição milenar, passada de geração para geração, de pai para filho, de grupo para grupo, através de narrativas orais. Neste processo de comunicação, a memória familiar e/ou a memória coletiva e afetiva são essenciais para a sua continuidade. Assim, como prática cultural, produz e transmite os saberes e fazeres da tradição e da cultura local, promovendo, dessa forma, a manutenção da memória social e da identidade local. O boanovense tem a sorte de ter a sua infância embalada pelas velhas cantigas dos ternos de reis no período do natal e ano novo, desde sua fundação. Há registros, por exemplo, de que o terno infantil As Pastorinhas, já encantava o povo desta terra desde 1911. Nas décadas de 1940, 50 e 60 o boanovense Germínio Souza organizava eventos folclóricos e festivos em Boa Nova e era conhecido por manter acesa a chama da tradição.

A partir de 1967, a sua filha mais velha, Maria de Lourdes, que já era casada com João Moreira dos Santos (João Traíra), resolveram dar continuidade ao trabalho criando um novo terno de reis. Com o falecimento de dona Lourdes em 1995, o Terno foi silenciado deixando saudades nos boa-novenses daquela época. Mas, felizmente, também havia o terno de seu Ramiro, conhecido como o Boi de Ramiro (hoje extinto) que cumpria a missão de prosseguir com a folia para a alegria de todos. Muitas vezes, os grupos dos ternos de reis tem continuidade, pois pagam promessas e compromissos que passam de pais para filhos, e, assim segue de geração em geração numa peregrinação que começa a partir do dia 31 de dezembro e vai até o dia 06 de janeiro.



... Já passava da meia-noite, acordo com uma cantoria, entoada
por homens, mulheres e crianças, na porta da casa. As
vozes eram ritmadas pelas palmas, o sapateado, o batido do
pandeiro, as cordas do violão, o som da zabumba.
Percebia-se muita folia.
... Acendemos o candeeiro. Abrimos todas as janelas e a
portada frente da casa. Os foliões adentram enfeitados,
coloridos,
cantando e dançando. O festejo de origem europeia, ganha
traços nacionais e é invadido pela mulinha do bumba-meu-
-boi. A mulinha retrata o animal que levava Maria de Nazaré
para Belém, quando Jesus nasceu. De acordo com o relato
do apóstolo Lucas, Jesus foi concebido num presépio – lugar
onde se recolhe gado. Logo, segundo a tradição da festa, o
Reisado visita às casas onde se arma o presépio para celebrar
o nascimento de Cristo. A sala fica pequena para tanta gente,
a empolgação contamina todos.
... O alferes, aquele que comanda a folia, entrega a bandeira
ao dono da casa que a beija e a coloca junto ao presépio.
A pequena gruta formada de jornal pintado, casca de lajedo,
galhos de pitanga, espelho, as imagens, os bichinhos e
a estrela no seu alto, ganhava vida com o Deus Menino na
manjedoura. As mulheres iniciam a prece, acompanhadas,
ao fundo, pelas vozes dos homens... O presépio acabara de
ser abençoado. O comandante da folia recebe a bandeira
de volta para dar prosseguimento a sua peregrinação...


Trechos do conto “O Reisado chegou!” do livro Retratos
de Boa Nova (2003) do boanovense Nesmar
Andrade.


. Galeria de Fotos do Festival

 
     
 
 
 
     
 
 
     
 
 
 
     
   
     
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