| |
[24|05|04] Recém chegado de Barcelona, Danilo Santos de Miranda fala de sua participação no Fórum Universal das Culturas e aponta suas expectativas para o Fórum Mundial Cultural, a realizar-se em junho próximo, em São Paulo
Sociólogo, diretor do Departamento Regional do SESC-SP e Presidente do Conselho Diretor do Fórum Cultural Mundial, Danilo Santos de Miranda, concedeu uma entrevista, na última terça-feira 18, em que relata a importância do Fórum Cultural Mundial para o Brasil, sua atuação no Fórum Universal Cultural de Barcelona e a importância da Cultura para a civilização mundial. Miranda está à frente da direção do SESC, uma das instituições culturais de maior relevância no país, há 21 anos. "Assumi a direção do SESC em janeiro de 1984 e já trabalhava na instituição desde 1968. Meu tempo aqui é muito longo". Danilo também foi escolhido para ser Presidente do Fórum Cultural Mundial, em Abril de 2003, numa parceria com a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, o SESC-SP, a Rede Brasil de Promotores Culturais, o Ministério da Cultura, além do Instituto Cultural Casa Via Magia.
FCM - O significa para o Brasil e, principalmente para São Paulo, abrigar um evento como o Fórum Cultural Mundial?
DM - Significa uma afirmação de vontade, de desejo de transformação, de melhoria, refletindo em cima das questões cruciais do nosso tempo. O que é ação cultural? Quem financia? Quais são as perspectivas de um planejamento inteligente? Quais as obrigações do setor público ou privado? Enfim, é uma oportunidade de trazer o mundo, ou boa parte dele para São Paulo, para refletir sobre a questão da cultura como fator de transformação, de melhoria e desenvolvimento da sociedade e das pessoas. Isso significa o resultado de um momento histórico internacional. Muitas entidades e organizações do mundo inteiro lidam com essa discussão desde o Fórum de Barcelona, as discussões dentro da UNESCO estão colocando a questão cultural numa dimensão muito importante. Se pensarmos bem, existem as razões econômicas, das guerras, razões de ordem até geográficas, mas as razões, no fundo mesmo, dessas questões todas, tem a ver com a aceitação da diferença do outro, da diversidade das culturas, da mudança de entendimento sobre a realidade do mundo. E acho que trazer essas discussões ao centro, tentar aprofundar, tentar verificar que o homem constrói usando os recursos que a natureza coloca à sua disposição, sua inteligência, os meios a sua volta, seja para construir beleza, movimento, seja para construir cidade, seja para construir o que for, tudo isso é cultura, e isso tem a ver com o projeto universal para todo o mundo. Em São Paulo, Porquê? Por que São Paulo é uma cidade com características muito próprias, que refletem um pouco a realidade brasileira, que é uma realidade multicultural, diversa, variada, multi-influenciada e que atualmente tem uma resposta, digamos assim, a toda essa confusão do mundo de hoje.
FCM - Nunca foi mencionado o Rio de Janeiro para abrigar o evento?
DM - Foi mencionado. O Rio de Janeiro é uma cidade com características muito importantes, é a nossa cidade símbolo e a mais conhecida fora do Brasil. Mas ela, por diversas razões, ultimamente, reduziu um pouco algumas características de liderança, do ponto de vista da política, da economia, da cultura e também da violência. Agora, eu não sou partidário desta visão que desconsidera o Rio de Janeiro como cidade símbolo. Ela é importante para o Brasil, muito mais conhecida que São Paulo no exterior, uma das cidades mais conhecidas em todo o mundo, pela sua beleza natural. Mas o Fórum cogitou São Paulo porque a cidade se candidatou primeiro. Mas, por outro lado, o Rio foi sede do Fórum Brasileiro nos dias 19 a 21 de maio do qual também participei e foi muito relevante.
FCM - O evento do Rio foi uma prévia para o Fórum Cultural Mundial?
DM - Exatamente. O Fórum Brasileiro visou recolher todo o esforço dos diversos Fóruns Regionais que aconteceram em todo Brasil e esse processo teve um coroamento no Rio de Janeiro para ser trazido, posteriormente, para uma participação mais contundente da nossa realidade cultural brasileira no Fórum Cultural Mundial.
FCM - O Sr. esteve em Barcelona, no Fórum Universal das Culturas. Como foi sua participação no evento?
DM - Estive na abertura do Fórum Universal das Culturas. Fiz uma palestra numa prévia sobre o nosso Fórum. O Fórum de Barcelona tem uma característica muito diferente do nosso, nascido de uma necessidade local da cidade que se afirma como um pólo de discussão internacional, de eventos, feiras, sempre com muita competência. Está buscando isso como uma cidade mediterrânea, européia, mundial, com força e poder de ser um local onde grandes questões são levadas, discutidas e trazidas. O Fórum Universal tem a característica de ser um "megaevento". Os organizadores estimam mais de cinco milhões de pessoas, num período de quatro meses. Mas não é um projeto que abrange apenas a cultura, é também um projeto de caráter turístico, então dá para perceber que é um evento também humanístico, para projetar a cidade mesmo. A questão cultural também será discutida em uma série de diálogos, sobre os quais diversos temas que nos dizem respeito aqui em São Paulo. Então é uma troca sobre a questão do financiamento da cultura, política cultural, cultura e educação, cultura e meio ambiente, quer dizer, todas as questões ligadas à cultura serão discutidas em Fóruns específicos em Barcelona.
FCM - O Sr. deu uma palestra neste Fórum em que discursou sobre o Fórum Cultural Mundial. Como foi recebido?
DM - Falei sobre o nosso Fórum num seminário "Pré-Fórum", [dias 5 e 6 maio], que chamava Interação, ou Interacciò, na língua catalã. Falei mais sobre as perspectivas do Fórum no Brasil e isso foi interessante porque tive a oportunidade de mostrar para todos, as perspectivas do nosso evento. No dia seguinte, iniciou-se mais um Fórum com as autoridades locais que reuniu prefeitos e personalidades do mundo todo, que nasceu no Fórum Social Mundial de Porto Alegre e que tem tido uma ação importante, sobretudo, na elaboração na chamada "Agenda 21". Inclusive a nossa prefeita [Marta Suplicy] de São Paulo também esteve por lá. Agora, o Fórum Universal Cultural é um "megaevento" com características grandiosas, com pop stars como Sting, Bob Dylan, entre outros. Nosso Ministro Gil esteve lá também. Na abertura, por exemplo, teve um pequeno show, com uma série de músicas não cantadas, mas vocalizadas e, no palco, estava nada menos que a Rosa Passos, nossa representante.
FCM - O que o Sr. achou da receptividade das pessoas em relação ao nosso Fórum?
DM - Em primeiro lugar, uma reação muito positiva, porque denota no Fórum a intenção realmente de focar a discussão e trabalhar em cima da importância da questão Cultural. A cultura tem que ser igualitária por excelência na questão da diversidade. Esse é o fundamento. Então, como tornar a realidade, sobretudo, nos países emergentes, para que haja mercado para os artistas que vem lá debaixo, que vem lá do Sul? Nosso Fórum trabalha essa característica. É muito forte essa idéia de fortalecer àqueles artistas que estão no ostracismo e tentar dar mais visibilidade a eles. Sobretudo àqueles países e sociedades provenientes desses países que estão fora do eixo hegemônico que liga a Europa Ocidental aos EUA. Na condução de um jeito único de fazer música, teatro, cinema, uma linha única de proposta do ponto de vista estético, uma cor única pra moda, um jeito único de fazer o pensamento fluir. É importante que esse diálogo se trave de uma maneira absolutamente igualitária, para mim, o sentimento da igualdade é uma conquista da civilização e essa conquista tem que ser profundamente valorizada. Ela, na prática, não é valorizada mesmo por países que dizem que respeitam a democracia, que respeitam a igualdade. Isso não é real. Essa questão da igualdade pra mim é um dos fundamentos da civilização que nós conseguimos. É curioso observar que se de um lado a civilização atingiu um nível de apuramento dessa percepção igualitária tão grande, sobre todo o mundo ocidental democrático, por outro lado a civilização desenvolveu uma resposta cada vez mais bárbara, cada vez mais violenta, cada vez mais sofisticada a esse outro lado. A partir daí existe um barbarismo que se desenvolveu e que está presente nesta relação hegemônica que estabeleceu um jeito único de fazer as coisas, da necessidade de impor a guerra para que determinado grupo, ou determinada sociedade obedeça um certo modo de vida. O terrorismo é uma doença que se desenvolve também de uma maneira bastante sofisticada a partir de tudo isso. De um lado a gente conseguiu a coisa mais sofisticada e moderna, do outro lado nós também temos a coisa mais sofisticada e moderna, mas que é para impedir e combater o lado positivo da civilização. Acho que a cultura coloca isso tudo no liquidificador e faz de alguma forma uma depuração. Acho que tanto o nosso Fórum, como o de Barcelona, oferecem um pouco dessa condição.
FCM - O que será do Fórum depois deste evento? Tem a pretensão de ser um evento fixo?
DM - Existem outras pessoas envolvidas nesta discussão. Eu acho que sim, acho importante. Nós temos essa missão de fazer esse Fórum agora e está muito difícil viabilizá-lo, está muito complicado, mas estamos correndo atrás de muita coisa para que isso possa acontecer. Hoje mesmo [18 de maio passado] terei uma reunião com o governador Geraldo Alckmin sobre o assunto. Eu estou muito focado na realização deste Fórum e de transformá-lo em algo muito positivo para todo mundo. Mas é claro que isso vai gerar um movimento, certamente teremos outros, ou aqui ou em outra parte, e vamos estabelecer condições para que isso continue acontecendo.
FCM - Mudando de assunto, o Sr. vai receber o título de Cidadão Araraquarense? Bela Homenagem.
DM - Olha, eu tenho uma ação no SESC há 21 anos. Assumi a direção em janeiro de 1984 e já trabalhava na instituição desde 1968. Meu tempo aqui é muito longo, conheço muita gente do interior de São Paulo. Que, para mim, é a parte mais desenvolvida do país. Se te perguntarem: aonde é a parte mais desenvolvida do país? É o interior de São Paulo. E Por quê? Simplesmente pelo serviço que oferece para a população, pela relação entre o Estado e o cidadão, por uma série de razões. Tem também algumas deficiências, é claro, uma delas, inclusive está na área de educação e cultura. Na educação não tanto, como ensino regular é muito bom, mas a cultura para mim é parte do processo educativo também. Aliás, para mim é uma coisa só: cultura-educação, um bolo único. Nós temos uma unidade em Araraquara e ela é muito atuante e significou uma mudança na vida da população do ponto de vista das propostas, das ações culturais e esportivas. Em função disso é uma retribuição, uma homenagem, na verdade, para o SESC. Considero como tal, portanto, não vejo como uma homenagem pessoal exclusiva para mim, é uma homenagem coletiva. Araraquara é uma cidade com características muito curiosas: primeiro, tem um nome que os franceses não conseguem pronunciar; bom, não só os franceses, nenhum estrangeiros [rs]. É uma cidade vibrante, com uma atuação grande, com uma presença significativa na vida cultural, educativa, esportiva. E na próxima segunda-feira [24 de maio] estarei lá para receber este título. Sinto-me muito tocado por receber essa homenagem.
volta |