[28|07|2004]
Mídia e Cultura: Critérios, Escolhas e Agendas
O papel da mídia no trato com a cultural. Os critérios, as escolhas e as agendas na relação mídia e cultura. Essa era a proposta do debate, que com a ausência de alguns participantes, abriu um grande espaço para a participação do público. A moderadora Nayse Lopes, jornalista, iniciou os trabalhos falando do momento em que vivemos, das mudanças que passamos e sobre fatos que nunca aconteceram, como a junção de mega-empresas no controle da mídia. Quando perguntou se havia algum representante da imprensa brasileira, apenas uma pessoa levantou o braço. “Isso demonstra o interesse da nossa imprensa pela cultura”, lamentou.
O grande destaque do debate foi o jornalista norte americano Danny Schechter, que botou o dedo na ferida da imprensa, levantando diversas questões relativas à mídia e mostrando como os colegas jornalistas abriram mão de seus valores em troca de uma suposta objetividade. “De um lado está o mercado e as pressões das corporações, de outro o desejo do jornalista para falar e apresentar as realidades sociais”.
Com um discurso crítico, incisivo e bem atual, disse como as pessoas em todo mundo estão se conscientizando das fragilidades e do poder da mídia. Apresentou dados, em que 70% dos norte-americanos se dizem insatisfeitos com a mídia, ao mesmo tempo em que os próprios profissionais do setor também mostram não estar satisfeitos. “Quanto mais você assiste TV, menos você fica sabendo”.
Ele relatou uma história recente de uma jornalista de uma TV pública irlandesa que argumentou contra o presidente norte-americano George W. Bush, que ficou furioso e cancelou a entrevista. A posição da jornalista surpreendeu, já que a contestação e crítica é algo que não tem acontecido nos Estados Unidos, indo de encontro à função da imprensa. “O jornalista representa o interesse público. O jornalismo hoje está sub-informando, se é que está informando”.
Citou a Internet como uma rolha unificadora contra a homogenização atual. Falou das fusões da mídia, de como os militares estão utilizando a mídia como o quarto front da guerra. “Se eles não tiverem a mídia, não ganham a guerra”. Para Schechter, o objetivo dos militares é que a mídia não discuta, não desafie e aceite sempre. Segundo ele, a população norte-americana realmente não tem muito conhecimento do que acontece fora de seu país, por falta de conhecimento. “Quando as pessoas ignoram o que elas não conhecem, elas não têm o que dizer. Os Estados Unidos se transformou num país sub-desenvolvido, porque as pessoas estão desinformadas, temos muita tecnologia, mas uma enorme concentração de poder e ideologia”.
Colunista e um dos responsáveis pelo Media Channel , Schechter está lançando um documentário chamado “Armas de Decepção em Massa”, onde desafia o poder da mídia. “Quando a mídia se torna uma estrutura de manipulação, estimulando, por exemplo, a guerra, ela promove cinismo e desespero”. Completou dizendo que esse uso e controle da mídia são uma ameaça à democracia. Atento a situação do Brasil, disse que a concentração de mídia no país tem que ser conhecida em todo mundo.
Criticou ainda o atual momento de culto a celebridade, que segundo ele, destrói o contexto básico dos homens. “A mídia é um poder, não apenas um grupo de instituições. O observador se tornou um carneirinho”. Mostrou-se um combatente, falando do trabalho do Medias Channel e estimulando a todos a tomarem seus papéis ativos. “O desafio é tornar a comunicação bilateral. É preciso lutar, resistir, ter esperança. Há um combate muito duro que deve ser feito. Faço porque acho que é meu dever”.
O produtor musical francês Bela Bowé deu prosseguimento ao debate partindo para outro aspecto da discussão sobre a mídia. Ele falou do trabalho desenvolvido pela Rádio França Internacional, da dificuldade da música do mundo tocar na França e do estímulo a novos talentos através do Prêmio de Música instituído pela rádio. Questionado pelo público, falou de como é a propaganda nas rádios francesas e das mudanças no mercado de discos. “Me preocupa o modo como os jovens têm acesso à música, eles não se preocupam com quem é o artista, nem sabem o nome deles, ás vezes. É um perigo para algumas formas de música”, finalizou.
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