4- VISÕES SOBRE FREUD

 

 

“Parece que o nome de Freud chega ao Brasil desde 1899, no mesmo ano em que foi impressa A Interpretação dos Sonhos. Juliano Moreira (1873  1933), a essa altura ainda um jovem professor da Escola de Medicina da Bahia, o teria então citado numa aula. O fato consta de relatos posteriores mas não há prova documental.

 

O Brasil conheceu cedo e recebeu de forma logo muito positiva os ensinamentos freudianos. Por um lado, nossa enorme distância físicano globo parecia afastar-nos do “modesto sábio israelita de Viena”  como o chamou em 1927 a Revista do Brasil. Por outro lado, somos uma cultura jovem, curiosa, receptiva, sincrética, aberta à simbioses, imigrantes, novidades, agitos que possam contribuir para nossa vitalidade. O pensamento freudiano chega à intelectualidade brasileira desde a década de 10, e circula amplamente entre os modernistas, fornecendo-lhes subsídios básicos para sua revolução ideológico-estética.”

 

Brasil Psicanálise & Modernismo  Masp

 
 
1- FICHA TÉCNICA 2- ROTEIRO 3- FONTES SELECIONADAS 4- VISÕES SOBRE FREUD
5- CARTA DE EINSTEIN 6- FOTOS DA PEÇA 7- CONCEPÇÃO VIA MAGIA
     

 

 

“Somente a captação do pensamento desses três gênios, Marx, Nietzsche e Freud, poderá indicar o verdadeiro caminho do homem moderno na direção de sua autenticidade e no derrocamento inflexível das velhas formas absurdas da exploração patriarcal.”

 

Oswald de Andrade, Estética e Política, 1929

 
 

“Caro colega,

A visão da nova Revista Brasileira de Psicanálise me deu muito prazer. Que ela tenha um próspero futuro. O efeito seguinte  deste envio foi que eu comprei uma pequena gramática portuguesa e um dicionário alemão-português. Durante estas férias eu quero chegar ao ponto de poder ler pessoalmente a revista. Com meus agradecimentos e saudações, Freud”

68 Carta de Freud e Durval Marcondes, 27 de junho de 1928  Coleção Paula Marcondes

 

     

O ETHOS DA VIOLÊNCIA

 A auto-exaltação desmensurada da individualidade no mundo do espetacular fosforescente implica a crescente volatização da solidariedade. Enquanto valor, esta se encontra assustadoramente em baixa. Cada um por si e foda-se o resto parece ser o lema maior que define o ethos da atualidade, já que não podemos, além disso, contar mais com a ajuda de Deus em nosso mundo desencantado. 

A solidariedade seria, assim, o correlato de relações inter-humanas fundamentadas na alteridade. Para isso, no entanto, seria necessário que o sujeito reconhecesse o outro na diferença e singularidade, atributos da alteridade.  

O que justamente caracteriza a subjetividade na cultura do narcisismo é a impossibilidade de poder admirar o outro em sua diferença radical, já que não consegue se descentrar de si mesma. Referido sempre a seu próprio umbigo e sem poder enxergar um palmo além do próprio nariz, o sujeito da cultura do espetáculo encara o outro apenas como um objeto para seu usufruto. Seria apenas no horizonte macabro de um corpo a ser infinitamente manipulado para o gozo que o outro se apresenta para o sujeito no horizonte da atualidade 

Dessa maneira, o sujeito vive permanentemente em um registro especular, em que o que Ihe interessa é o engrandecimento grotesco da  própria imagem. O outro lhe serve apenas como instrumento da auto-imagem, podendo ser eliminado como um dejeto quando não mais servir para essa função abjeta. 

Com isso, as relações inter-humanas assumem características nitidamente agonísticas, de uma maneira perturbadora. Na ausência de  projetos sociais compartilhados resta apenas para as subjetividades  os pequenos pactos em torno da possibilidade de extração do gozo do corpo do outro, custe o que custar. 

Este é o cenário para a estridente explosão da violência na cultura da atualidade, que assume assim não apenas diversas formas, mas também configurações inéditas. As práticas neonazistas estão aí mesmo, em toda parte, na nossa existência cotidiana. Saquear o outro, naquilo que este tem de essencial e inalienável, se transforma quase no credo nosso de cada dia. A eliminação do outro, se este resiste e faz obstáculo ao gozo do sujeito, nos dias atuais se impõe como uma banalidade. A morte e o assassinato, assim, se impuseram na cena cotidiana como trivialidades. Neste contexto, surge até mesmo uma nova categoria de desviantes, as crianças, cujos crimes estão aumentando nos Estados Unidos e na Inglaterra, como se sabe.

 Joel Birman - Mal-estar na atualidade