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Cultura e Desenvolvimento Cultural

A dimensão cultural do desenvolvimento é defendida pela UNESCO, de forma organizada e sistemática, desde o lançamento, em 1988, da Década Mundial do Desenvolvimento Cultural e da implantação, em 1993, da Comissão Mundial de Cultura e Desenvolvimento.

Essa Comissão, coordenada pelo ex-secretário geral da ONU, Sr. Javier Perez de Cuéllar, por meio do relatório Nossa Diversidade Criadora, lançou um desafio para a comunidade internacional e para os Estados-membros da UNESCO: repensar os modelos de desenvolvimento adotados no século XX, que conduziram ao empobrecimento das nações, aos conflitos armados, à exclusão social e econômica e à perda gradativa da qualidade de vida dos países pobres. O dado de referência, adotado pela Comissão para fazer frente ao desafio de edificar novos paradigmas para o desenvolvimento no século XXI, é que chegamos ao final do século XX, com mais de 1 bilhão de pessoas excluídas do acesso aos bens de consumo primários, à informação e ao processo de mundialização.

Se o papel central da UNESCO é o de “dar uma cara humana à globalização, promovendo a paz, a segurança e o desenvolvimento no século XXI”, é prioritário sensibilizar os atores sociais, governos e a iniciativa privada a assumir a centralidade política da cultura no processo de humanização dos modelos vigentes. Uma centralidade capaz de devolver às pessoas a primazia na construção coletiva das várias formas de socialidade, estimulando a criatividade na diversidade e formas não-excludentes de crescimento social e econômico.

Atingir uma maior equidade no nível mundial, com o objetivo de atenuar e prevenir os danos causados ao meio ambiente e de reduzir a pobreza é uma tarefa complexa que não pode mais permitir que a cultura e as políticas culturais permaneçam em um papel secundário – muitas vezes terciário – de promover a integração do indivíduo à sua coletividade e conferir-lhe papel de protagonista na rede intrincada do desenvolvimento sócio-econômico.

A visão instrumental do desenvolvimento que subestima “a importância do fator humano – a teia complexa de relações, crenças, valores e motivações existentes no centro de toda a cultura – “1 propõe um processo perigosamente linear, homogêneo e único que fracassa na tentativa de incluir a diversidade das culturas e experiências, as formas e os tempos próprios de cada sociedade de inventar as suas maneiras de crescimento econômico, social e cultural. A evidência desse esgarçamento social e do esgotamento de um modelo em si excludente reafirma a necessidade de refletirmos sobre as bases das políticas culturais, ampliando suas ambições e suas estratégias programáticas.

Nos países latino-americanos, essa tarefa se amplia, na medida em que as democracias frágeis e o quadro de desigualdade social impõem a construção de pilares políticos capazes de dar início ao processo de transformação das políticas culturais em culturas políticas aptas a enfrentar as enormes disparidades sociais e os conseqüentes desafios de sustentabilidade. Políticas democráticas e inclusivas que levem em conta a variedade de necessidades e demandas da população e que sejam capazes de propiciar a convivência dessas multiplicidades étnicas, religiosas, de tradições, gostos e sensibilidades. Assim, é importante destacar que requerer a centralidade do papel da cultura no desafio de formular paradigmas de desenvolvimento mais humanos e integrais é em si destacar essa diversidade criadora, multifacetada, polissêmica, que caracteriza a humanidade em toda a sua história. É também destacar a capacidade criadora do indivíduo e das sociedades de se reinventarem e de propor alternativas próprias de desenvolvimento e de trocas simbólicas.

A pedra fundamental dessa discussão em torno da interdependência entre cultura e desenvolvimento foi o relato da Conferência de Estocolmo, em 1998, que contou com a participação de mais de 2.400 entidades representativas de governos, organizações inter-governamentais internacionais e não-governamentais, fundações, associações voluntárias e outras entidades civis, além de vários artistas, acadêmicos e especialistas. A Conferência estabeleceu 5 princípios de uma política de cultura capaz de promover o desenvolvimento humano sustentável ao mesmo tempo em que estimulam o florescimento de diferentes culturas:

1) A política Cultural, como um dos principais componentes da política de desenvolvimento endógeno e sustentável, deve ser implementada em coordenação com outras áreas sociais, na base de um enfoque integrado. Qualquer política de desenvolvimento deve ser profundamente sensível à sua própria cultura;

2) As políticas culturais do próximo século devem se antecipar, respondendo tanto aos problemas persistentes quanto às novas necessidades;

3) A participação efetiva na sociedade de informação e o domínio de cada tecnologia de informação e comunicação constituem significativa dimensão de qualquer política cultural;

4) Os governos devem se esforçar para estabelecer parcerias com a sociedade civil no planejamento e implementação de políticas culturais que estiverem integradas às estratégias de desenvolvimento;

5) Em um mundo cada vez mais interdependente, a renovação das políticas culturais deve ser prevista simultaneamente nos níveis local, nacional, regional e global.

Esses princípios requerem um esforço de definir opções estratégicas que conduzam à sua plena realização. Três nos parecem ser as opções primárias a serem adotadas pelos países latino-americanos nesse esforço de edificar uma política cultural contemporânea e integradora : cultura como fator e mola motriz do desenvolvimento econômico, a democratização do acesso ao conjunto de bens e serviços culturais produzidos histórica e contemporaneamente pela humanidade e o fortalecimento do papel social da cultura, entendendo-a como o elemento capaz de integrar o indivíduo a sua coletividade e lhe conferir sentido de pertencimento.

Estas três estratégias de política cultural, integradas em um projeto político maior de fortalecimento e dinamização dos aspectos potenciais de crescimento sustentável, se mostram opções interessantes para deflagrar um processo de amadurecimento dessa cultura política capaz de “semear a paz na mente dos homens” e conduzir a uma ampla reforma dos modelos existentes. Nesse aspecto, a compreensão óbvia, mas nem sempre aceita pelos coordenadores e estrategistas políticos, é a que sempre orientou o trabalho da UNESCO ao definir as suas prioridades de ação: uma integração verdadeira só ocorre entre indivíduos e comunidades que estejam no mesmo patamar de igualdade umas em relação às outras.2 Essa condição passa a ser um fator preponderante na mobilização em torno da construção de uma cultura de paz, já que as raízes culturais da violência e da guerra não são outras se não a pobreza, a exclusão, a ignorância, a exploração, o abandono e o desligamento compulsório de suas próprias tradições.

A contribuição efetiva que a política cultural, tecida a partir dessas preocupações, pode conduzir é introduzir, na agenda de prioridades desse processo de elaboração, a reflexão sobre o modelo de desenvolvimento que se parte e aquele que se deseja, e a necessidade de destacar o valor da distribuição dos dividendos econômicos e sociais advindos desse processo. Tomando o Brasil como referência: em um país onde o Índice de Desenvolvimento Humano, IDH, publicado, em 1999, pelo Relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), está em 79º lugar, com uma das maiores concentrações de renda do planeta, da ordem de 32 vezes entre mais rico e o mais pobre, pensar num projeto de desenvolvimento sustentável a partir do eixo cultural é pensar sobre os elementos que podem restabelecer as condições de igualdade entre as pessoas, criando as condições de religação do sujeito a si mesmo, com a sua história e com o seu potencial criador-produtivo e, dessa forma, com a sociedade onde vive.

É estabelecer parâmetros que, ao incorporar um conjunto de preocupações legítimas, sejam eficazes para também estabelecer uma referência ética que provoque reflexões constantes e levem a mudança de valores e práticas sociais. É contribuir para o desafio estratégico de “humanizar a globalização” a partir da enorme e pujante diversidade criadora dos povos, conferindo-lhe papel central na busca constante de encontrar razão para a nossa própria existência.

1 CUELLAR, JAVIER PEREZ. Nossa Diversidade Criadora. Papirus: 1997, pág.9,
2 Referência ao texto de TEIXEIRA COELHO, J. Da Política Cultural à Cultura Política, pág.89. Revista Contato, nº 2, 1999.

Jorge Werthein
Representante da UNESCO/Brasil e Coordenador da UNESCO/Programa Mercosul

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Culture And Social Development

The cultural dimension of development has been supported and defended by UNESCO in an organized and systematic capacity since the 1998 launching of the World Decade for Cultural Development and since the implementation, in 1993, of the World Commission on Culture and Development.

This Commission, coordinated by the former Secretary General of the UN, Mr. Javier Perez de Cuéllar, through the report Our Creative Diversity, challenged the international community and the State members of UNESCO to rethink models of development adopted in the XX century, which further impoverished nations, causing armed conflict, social and economic exclusion, and the gradual but constant loss of quality of life within poor countries. The fact of reference, adopted by the Commission to front the challenge of building new paradigms for development within the XXI century is that we have arrived at the end of the XX century with more than 1 billion people excluded from access to basic material needs, information and the process of globalization.

If the central role of UNESCO is to “give a human face to globalization, promoting peace, security and development in the XXI century”, a priority is to compel the social actors, governments and the private sector to place culture within the center of politics in the humanizing process of new models- a focus capable of impowering people in the collective construction of new forms of social organization, stimulating creativity in diversity and inclusiveness in social and economic growth.

To reach a greater equality at the world level, with the intention of diminishing and preventing damages caused to the environment and reducing poverty, is a complex task which can no longer permit that culture and cultural politics take second place, many times third, in promoting the integration of the individual into the community and giving individuals the role of protagonists in the intricate network of social and economic development.

The technical vision of development which underestimates the “importance of the human factor in the complex web of relationships, beliefs, values, and existing motivations at the center of every culture”1 proposes a dangerously linear process, homogenous and a failure in the attempt to include the diversity of cultures and experiences, as well as the unique methods and timing of each society in inventing its own economic, social and cultural growth. The evident social fragmentation and waste of a particularly excluding model reaffirms the necessity for reflection upon the cultural political bases, broadening its ambitions and strategic programming.

Within the Latin American countries, this task expands in the sense that both the fragile democracies and the overall context of social inequality heed the construction of political pillars capable of initiating a process of transformation from cultural politics into political cultures equipped to face the enormous social disparities and challenges of sustainability. Democratic and inclusive practices which take into account the needs and various demands of the population while stimulating the peaceful and collaborative living of multiple ethnicities, religions, traditions, tastes and sensibilities are key. Thus it is crucial to emphasize that to place culture into the central arena of all interaction is to highlight the multifaceted, creative, and polysemous diversity which characterizes humanity throughout all of its history, while strengthening the creative capacity of the individual and of societies to reinvent themselves and propose new alternatives for development and symbolic exchanges.

The fundamental base of the discussion concerning the interdependence of culture and development occurred at the Conference of Stockholm in 1988 which included more than 2400 governmental, intergovernmental and nongovernmental organizations, foundations, voluntary associations and other civil entities, along with artists, academics and specialists. The Conference established 5 principles of a political culture capable of promoting sustainable human development while stimulating the flourishment of different cultures:

1) Cultural politics, as one of the integral components of endogenous and sustainable development, should be implemented in conjunction with other social arenas, with an encompassing focus. Any politics of development should be acutely sensitive to its own culture;

2) The cultural politics of the next century should anticipate itself, responding to persistent problems as well as new necessities;

3) Effective participation in the society of information and the domination of information and communication technology constitute a significant dimension of any cultural politics;

4) Governments should strive to establish partnerships with civil society for the planning and implementation of cultural politics integrated to all strategies of development;

5) In an increasingly interdependent world, the renovation of cultural politics should be undertaken at the local, national, and global levels.

These principles require a concentrated effort towards defining strategic actions conducive to their realization. Three appear to us as primary options to be adopted by Latin American countries in the effort to construct an integrated contemporary cultural politics: culture as key element and motivating force of economic development, the democratization of access to cultural goods and services produced historically and presently by humanity and the strengthening of the social role of culture, understanding its potential capacity to integrate individuals and their communities while conferring a feeling of cultural connectedness.

These three strategies of cultural politics, integrated with a greater political project geared towards strengthening dynamic potentials for sustainable growth are intriguing options towards establishing a maturation of cultural politics capable of “sowing peace in the minds of men” while striving towards the extensive reform of the existing models. Regarding this aspect, the understanding is clear, but not always accepted by the political strategists and coordinators but is the understanding which has always guided the work of UNESCO in defining its active priorities: true integration only occurs between individuals and communities with some relation of equality with each other. This condition becomes a key factor in the mobilization for a culture of peace, since the cultural roots of violence and war are none other than the result of poverty, exclusion, ignorance, exploitation, and the abandonment of traditions.

The effective contribution of a cultural politics designed in connection to these preoccupations would be a greater reflection concerning desired models of development and the necessity of emphasizing the value of social and economic matters resulting from this process. Taking Brazil as a reference: in a country where the Index of Human Development, IDH published in 1999 by the United Nations Development Report, is ranked 79º with one of the greatest concentrations of wealth on the planet, at the ratio of 32 to 1 between the wealthiest and the poorest peoples, to conceive a sustainable development project using the cultural axis is to contemplate elements which may reestablish conditions of equality between people, creating the conditions for greater connection to one’s history, self, creative/productive potential, and society.

The establishment of parameters that incorporate legitimate preoccupations and demarcate ethical references constantly provokes reflection and leads to changes in values and social practices. To contribute to the strategic challenge of “humanizing globalization” from the perspective of the creative diversity of all peoples, the central roles of action must be conferred to people in their search for coexistence.

1 CUELLAR, JAVIER PEREZ. Nossa Diversidade Criadora. Papirus: 1997, pág.9,

Jorge Werthein
Representative of UNESCO/Brasil and Coordinator of th UNESCO/Mercosul Program

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