topico Matéria :
Conferência - Produção Cultural na América Latina
 

Façam. Existam.

Por Luciano Matos
Fotos por Claudio David

~  Lucia Pulido / Benjamim Taubin ~Quais os caminhos alternativos para a produção cultural na América Latina? Foi traçando um panorama da arte em seus países que os produtores argentinos Maria Carrascal e Débora Staiff e os músicos Fernando Tarres, também da Argentina e Lucia Pullido (Colômbia), com mediação de Benjamin Taubkin, discutiram que rumos podem ser dados para a produção no continente, em especial, no campo da música. O debate integrou o ciclo de conferências do VI Mercado Cultural e apresentou algumas opções para os artistas independentes.

O discurso unânime era em favor da união, da troca de informações e do fim das fronteiras que separam países vizinhos. A opinião de Taubkin parecia encontrar eco tanto na mesa quanto no público. Segundo ele, a música da América Latina é uma das mais ricas e vivas do mundo e tem algo de muito especial em relação às outras, não é feita pensando no mercado. “Existem pessoas em várias cidades que fazem música não pensando em vender, mas porque é a expressão que elas têm”. Infelizmente, a constatação óbvia é que no Brasil não conhecemos essa música, ela não toca nas rádios e o que conhecemos é uma visão estereotipada.



linha


~ Maria Carrascal ~Um problema que não ocorre apenas entre países vizinhos, mas dentro deles próprios, seja o Brasil, seja a Argentina. “Vivemos em um país muito grande e não sabemos muito bem o que acontece no interior da Argentina, pois existe um problema enorme de distribuição”, disse Maria Carrascal. E a distribuição talvez seja o maior gargalo encontrado atualmente pelos artistas independentes. Débora Staiff, por sua vez, ressalta que se a produção não pertence a grandes grupos, tudo se torna muito difícil.

A colombiana Lucia Pullido contou suas experiências com diferentes níveis de produção, cada um com seus benefícios e desvantagens. Ela ressaltou a importância da distribuição oferecida pelos grandes selos comerciais, que, em compensação, não saberiam promover e vender músicas que atendam aos requisitos do mercado. “Economicamente nem é tão vantajoso para nós”. Já trabalhar se auto-produzindo implica muito esforço econômico, mas oferece a liberdade de produção, sem pensar em fórmulas para vender. “O benefício econômico se consegue aos poucos, mas acabamos não fazemos parte de catálogos”. Finalmente, destacou os selos independentes que, segundo ela, oferece muitas vantagens: “há controle de qualidade, infra-estrutura, o trabalho sai como você quer, você permanece num catálogo e eventualmente há um retorno econômico”.


linha

Alternativas

~ Fernando Tarres ~Não foram, porém, só lamentações que ganharam destaque. Pelo contrário, chamaram a atenção as visões de dois argentinos dando exemplo de como existem opções para os artistas independentes. Pregando idéias de juntar forças, o violonista Fernando Tarres afirmou que a grande dificuldade é com a expectativa de abrir portas. Para ele, não adianta ficar pedindo ou esperando de instituições, tem-se que construir algo que dure. “Temos que assumir nossa responsabilidade. Unir as pessoas que produzem para nutrir-se mutuamente. Além de criar, paralelamente, fazer pelo menos um pouquinho para consolidação de uma estrutura”.

“Como fazer para que a nossa música chegue às pessoas?”. Foi com esse questionamento que o músico argentino Ramon Santiago foi convidado para relatar sua experiência ao final da conferência. Segundo ele, 45 % das produções argentinas são independentes e isso mostra que não há um interesse de vender, mas um enorme interesse em produzir. “É cada vez mais difícil o público poder escolher o que quer ouvir. Faltam mecanismos de filtragem, faltam mecanismos que aglutinem certos tipos de público e certos tipos de artistas. É necessário gerar esses mecanismos”, afirmou.

~ Débora Staiff ~Nesse contexto, apresentou o projeto Club del Disco, que tem contribuído de forma lenta, mas fundamental, para distribuição de artistas argentinos. Criado em junho deste ano, a iniciativa consiste em um clube de fato, onde o sócio paga um valor por um disco e revista mensal e os recebe em casa. O projeto, que em seis meses já tem 800 sócios, contribui tanto para a divulgação e distribuição, quanto no próprio aspecto econômico, já que é comprada parte da tiragem inicial do artista. Os artistas selecionados são argentinos ou de países vizinhos, sempre com foco na qualidade dos trabalhos. “Queremos mostrar que a produção independente é melhor do que a comercial, não só na qualidade musical, mas na produção, na parte gráfica etc”.

Uma mostra de que há opções de como melhorar a situação atual, mas é necessário tomar iniciativa. O discurso da mesa ecoava justamente na idéia de que é necessário agir, botar a mão na massa, com parcerias, co-produções. “Cultura se faz com o trabalho de muitos. Quanto mais pessoas com iniciativa, melhor. Façam, existam. Porque se a gente não fizer, é como a saúde do corpo, algo ruim pode aparecer”, disse Benjamin ao fechar a mesa.


linha
   
  Realização:
 
R. Henriqueta Catarino, nº 123 - Federação
40.330-180 - Salvador Bahia - Brasil
Tels.: (5571) 3247 0068
         (5571) 3331 2189
Fax:  (5571) 3245 3089