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Salvador amanhece vermelha e branca
Por Raquel Salama
Fotos de Cláudio David

Eram nove e meia da manhã e a igreja do Rosário dos Pretos, no Pelourinho, já estava lotada desde as sete da manhã. Na porta da igreja, lembranças das mais diversas eram vendidas aos fiéis e admiradores da festa em homenagem a Santa Bárbara. Fitinhas, chaveiro, colares, terços, tudo em dois tons. Era a economia de uma cultura de mais de quase quatro séculos. Organizada há décadas pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, a festa surgiu em 1641, organizada por comerciantes do antigo Mercado de Santa Bárbara, no Comércio.

Os olhares são múltiplos. Alguns de fé, outros de curiosidade e admiração, como a turista belga Frieda Bekaert, de visita a Salvador há duas semanas: “Gosto das cores, das pessoas negras, dos tambores, tudo aqui tem muita energia”. Apesar da multiplicidade cultural presente à festa, estavam todos unidos por um vermelho só, o vermelho de Santa Bárbara, representando o amor. No interior da igreja, as senhoras lembram momentos e contam histórias de família para esperar a missa começar. Estudantes circulam instigados com suas câmeras a registrar singularidades. Na lateral da igreja, a alegria de encontrar os amigos. Mães e filhas de santo preparam seus vestidos de renda e seus turbantes decorados com búzios. Freqüentadora da festa há cinco anos, Dona Antônia abraça as amigas. Do Terreiro de Oxum, ela vem todos os anos para reverenciar Santa Bárbara: “Iansã é guerreira, a gente pedindo com fé alcança”.

Em frente ao altar, uma legião de fiéis espera o toque das gotas de água benzida. Orações de Santa Bárbara estão em toda parte: nas cartilhas, nos lábios das mulheres e dos homens. Às 10h, todos se levantam para ouvir melhor o som que vem de fora. Começam os fogos e uma alegria enche o coração dos fiéis. No alto da Ladeira, um palco abriga o altar da missa campal, celebrada pelo monsenhor Ademar Dantas e pelo padre Josivaldo, da Diocese de Valença. Com as mãos ao alto a vibrar, todos cantam ao Espírito Santo ao toque de atabaques. Rafaela Chapes e Elisa Correa vieram de Fortaleza pelo Sebrae, sabiam todas as orações, mas ficaram perdidas com o ritmo diferenciado da missa. “Parece outra religião, é muito diferente”, contaram as visitantes, que são católicas praticantes.

Visitantes se encantam com a originalidade da missa

A animação da missa é realmente o que encanta na festa. Giovani di Domenico, pianista do grupo Immigrasons que estava participando do VII Mercado Cultural, disse nunca ter visto uma manifestação católica tão animada, o que fez mudar sua visão sobre a religião. “Lá em Roma, minha terra natal, os cultos católicos são muito conservadores, aqui há uma alegria contagiante”, conta.

Glória a Deus é o próximo canto. Todos acompanham cantando e dançando, numa festa de corpo e alma, unindo o sagrado ao profano numa beleza única. É hora de pedir a Santa Bárbara, e a missa prossegue pelos ritmos dos atabaques, tambores e agogôs tocados pela Irmandade do Rosário dos Pretos. Além do ritmo libertário, os cantos mostram que aqui a festa é revolucionária: “Fazei ressoar as palavras de Deus em todo lugar. Com o negro e com o índio, vamos mudar. Fazei ressoar as palavras de Deus em todo lugar. Com padeiro e com viola, animando nossa luta em todo lugar”. O padre lembra: “Nós é que fazemos a glória de Deus brilhar”. E de fato a beleza da missa vem da intensa participação popular. De acordo com o comandante da Polícia Militar, são cerca de 15.000 pessoas presentes.

Procissão regada a água de cheiro e caruru

No altar, o pão e o vinho são oferecidos ao povo ao som do afoxé. O padre encerra pedindo purificação a todos. Num gesto de mãos levantadas, todos se oferecem junto às oferendas. O padre pede ao senhor que receba de modo especial a história do Pelourinho, “lugar de tanta dor e perseverança”. O sacerdote encerra convidando os fiéis a seguirem a procissão, que representa a caminhada da vida. Após a saída dos santos da igreja com o Estandarte a Santa Bárbara à frente, a procissão segue ovacionada por uma chuva de pétalas. No ar, o cheiro de alfazema e do incenso do Preto Velho à janela. Todos seguem até o Terreiro de Jesus e descem a Ladeira da Praça até o prédio do Corpo de Bombeiros, que têm a Santa Bárbara como madrinha. A festa foi encerrada no largo em frente com um delicioso caruru oferecido a toda a população.

Colaborou Pedro Caribé

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