Ganhadeiras cantam em casa
Por Raquel Salama
Principal atração do dia 04 (segunda-feira) às 21h40, o grupo Ganhadeiras de Itapuã surgiu em março de 2004 como resultado de um longo trabalho de pesquisa desenvolvido por um grupo de artistas e moradores do bairro em torno da herança cultural da antiga vila de pescadores. O grupo reúne 18 senhoras com idade média de 70 anos, 11 crianças e mais 10 músicos que se encontram semanalmente na sede da ONG Crianças Raízes de Abaeté ou na casa de Dona Mariinha, onde encontram inspiração para desenvolver um repertório de cantigas e sambas-de-roda animado por performances de maculelê e capoeira.
Todo o trabalho é feito com o propósito de revelar a cultura tradicional de Itapuã através de elementos da contemporaneidade, como o próprio espetáculo. Após uma pesquisa com 100 questionários, o músico Amadeu Alves conseguiu reunir um grupo de senhoras que ainda mantêm viva em suas memórias a cultura das ganhadeiras, mulheres da região que no século XIX e início do século XX eram responsáveis pelo sustento de suas famílias. Essas negras, escravas ou libertas, compravam os peixes dos pescadores, faziam todo o processo de limpeza e os vendiam no centro da cidade dentro de balaios.
Além dos peixes, as ganhadeiras ainda comercializavam nos balaios produtos como goiaba, caruru, vatapá, mingau, pamonha, acaçá, canjica, acarajé e lelê, elementos que aparecem na composição do espetáculo. Este trabalho acabava sendo um fator de integração da comunidade negra local, o que gerava conflitos com a elite e a polícia da cidade. Na época várias leis foram criadas para dificultar a vida das africanas libertas, que muitas vezes eram forçadas a voltar para a escravidão.
No ganho da cultura
Se antes as ganhadeiras trabalhavam pelo sustento de suas famílias, hoje elas cantam e dançam pelo desenvolvimento cultural de Itapuã. Após se apresentarem em praças públicas, na Caminhada Axé e em encontros de importância internacional como a CIAD (Conferencia de Intelectuais da África e da Diáspora) e o Percpan (Panorama Percussivo Mundial), as Ganhadeiras pegaram a estrada e foram mostrar suas artes no VI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, em Goiânia.
O valor adquirido pelas apresentações é revertido em prol do grupo, um investimento direcionado a despesas básicas, mas também a figurinos e maquiagem, fundamentais para as apresentações. O Grupo das Ganhadeiras é uma verdadeira irmandade, na qual aparece a amizade e solidariedade de pessoas que moram no mesmo bairro, e tem problemas em comum.
Músico e criador do grupo, Amadeu Alves já projeta uma Associação das Ganhadeiras. O objetivo é que esse trabalho artístico se desdobre em projetos sócio-educativos. “A idéia é que a gente tenha uma sede onde possamos desenvolver cursos na área de música, culinária e dança para que o grupo continue sempre de forma auto-sustentável”, relada Amadeu.
Serviço:
O quê: As Ganhadeiras de Itapuã
Onde: Palco B da Lagoa do Abaeté
Quando: Segunda-feira, dia 04.12, às 21h40.
Quanto: Entrada franca |